sábado, 8 de maio de 2010

O atropelamento da professora

Fato que me entristeceu na semana foi o atropelamento daquela professora do Colégio Rosário, Maria Paula Leal, em plena faixa de segurança na Av. Benjamim Constant, logo após auxiliar um deficiente visual a atravessar a faixa.

A primeira coisa que vem à mente é que o mundo é um lugar injusto. Por que uma pessoa conhecida pela bondade e disponibilidade, que plantava sementes de preocupação social em jovens, como mostrou a matéria do Diário Gaúcho, tem que deixar esse mundo de uma forma tão sórdida?  Não seria mais justo um motoqueiro irresponsável, que foge após atropelar um ser humano, deixar o planeta?

Pode parecer um pensamento simplista, mas se pudesse escolher o momento da minha morte, ficaria feliz de saber que foi em função de um ato de generosidade. Em um mundo em que cada pessoa só se preocupa com o próprio nariz, consumindo recursos do planeta sem nenhuma preocupação em repor, me traria satisfação saber que fui diferente, mesmo em uma vida não tão longa.

Eu cresci acreditando em finais felizes, mas quanto mais eu vivo (e advogo), mais acredito que não existe justiça terrena. O que existe é um preço que cada um paga para cada ato bom ou mau que pratica. Esse preço se paga aqui. Não sei se existe um céu. Mas é provável que o inferno seja esse mundo. E faz bem à alma pensar que pessoas boas são chamadas mais cedo para um lugar melhor do que aqui, já que devem ser mais úteis por lá.

Afora qualquer divagação, tenho uma certeza: realizar algo notável (e ser generoso nos nossos dias é algo notável) sempre foi e sempre será uma das formas de se chegar mais próximo da imortalidade.

domingo, 2 de maio de 2010

O poder de um crachá

Poderia ser um twit, porém, é meio extenso para tanto. Mas foi o melhor texto que recebi na última semana. Então, sem tempo, por ora, para escrever algo mais inteligente segue minha homenagem a algumas pessoas que conheço...

Um oficial do DEA (Drug Enforcement Administration) vai a uma fazenda, no Texas e diz ao dono, um velho fazendeiro:
"Preciso inspecionar sua fazenda por plantação ilegal de maconha!"
O fazendeiro diz: "Ok, mas não vá naquele campo ali." E aponta para uma certa área.
O oficial diz indignado: "O senhor sabe que tenho o poder do governo federal comigo?" e tira do bolso um crachá mostrando ao fazendeiro:"Este crachá me dá a autoridade de ir onde quero....e entrar em qualquer propriedade. Não preciso pedir ou responder a nenhuma pergunta. Está claro? me fiz entender?”
O fazendeiro todo educado pede desculpas e volta para o que estava fazendo.
Poucos minutos depois o fazendeiro ouve uma gritaria e vê o oficial do governo federal correndo para salvar sua própria vida perseguido pelo Santa Gertrudes, o maior touro da fazenda.
A cada passo o touro vai chegando mais perto do oficial, que parece que será chifrado antes de conseguir alcançar um lugar seguro. O oficial está apavorado. O fazendeiro larga suas ferramentas, corre para a cerca e grita com todas as forças de seus pulmões:
"Seu Crachá, mostra o seu CRACHÁ!"

(adaptado de um desses emails que circulam pela web)

domingo, 25 de abril de 2010

Trilha Inca - parte II

O segundo dia

No segundo dia fomos despertados ali pelas 4h30min da manhã. Desmontamos as coisas, juntamos sacos de dormir na mochila e tomamos nosso café da manhã na tenda refeitório. Mais uma vez fomos avisados de que o dia seria difícil. Eu achava que tinha entendido e já estava achando o papo chato, inclusive.

Na primeira etapa do dia, seguimos pela trilha, ainda sem degraus. Um córrego nos acompanhava. Subimos por umas 2 horas. Saímos de uma altitude de 3.700m pra chegar a 4.200m. Enquanto os degraus não começam você acha que tudo está bem. Quando começa a ver que pra cima é só degrau começa a bater certo desespero. No meu caso foi vontade de chorar e não propriamente de alegria. Como estávamos bem mais pra trás que o resto do nosso grupo, não conseguimos usufruir do primeiro descanso. Quando chegamos lá, o grupo já estava partindo. Nosso grupo era formado em grande parte por intercambistas na faixa dos 20 anos que estavam há meses na altitude. Nós éramos os velhinhos do grupo, junto com outro casal de brasileiros e um argentino solitário. O outro casal de brasileiros, no entanto, foi mais esperto que nós: contrataram carregadores para as mochilas, de modo que não tinham os 12 quilos nas costas.

Na segunda etapa da manhã foram praticamente só degraus, com muitas árvores em volta como se fosse "ladeira acima". Na minha opinião foi a parte mais difícil da subida. Mais até do que o trecho final. Você não vê o que há em cima, só vê degraus. Terminada essa parte, o grupo fez uma parada para um lanche reforçado antes da parte mais difícil, acima de 4.000m, com muito vento e frio.A partir dali, a trilha eleva-se abruptamente em direção ao que chamam de primeira passagem "Warmiwañuska (passagem da mulher morta) a 4.200 m. Venta bastante neste local e o frio é intenso devido à altitude. Quando chegamos lá, nem nos arriscamos a sentar. Apenas admiramos a beleza em volta, picos com neve. Não ficamos lá em cima mais do que 30 minutos (a foto ao lado mostra a subida final da trilha, foi tirada do ponto mais alto). Depois, apenas descida até o acampamento.

A partir de Warmiwañuska a trilha é marcada por grandes descidas e algumas pequenas subidas. Alguns trechos possuem calçamento original inca. Não me lembro de ter subido nesta tarde, apenas descido. Foi até fácil, depois da manhã.

Paramos num acampamento chamado Pacaymayu. Era cedo ainda, tivemos almoço em torno das 4h da tarde e janta às 7h, à luz de velas. Foi com lanterna também que conseguimos chegar na barraca. Nada de banho também nesse dia. Havia um banheiro, mas sem luz elétrica, de modo que o banho seria frio. Na realidade, gelado, pois a água vem dos córregos da redondeza, formados por degelo dos picos. Até tentei, mas depois cheguei a conclusão que os lencinhos úmidos resolviam o problema. Foi a noite mais fria, mas não passamos frio. Dormi com blusa de lã e, obviamente, dentro do saco de dormir que alugamos em Cuzco.


O terceiro dia

Dizem que o terceiro dia é o mais bonito. Primeiro, porque ingressamos na chamada selva peruana. Segundo porque passamos por vários sítios arqueológicos. Não estávamos com sorte. Amanheceu com uma névoa que nos acompanhou até a meia-tarde.

Logo após a saída do acampamento, nossa primeira parada foi no sítio de Runkuraqay (foto ao lado). Runkuraqay ("pilha de ruínas") está a 3.850 m de altitude. Por causa de sua posição e da disposição de seus compartimentos, acredita-se que o edifício tenha sido um posto para os viajantes que seguiam a trilha até Machu Picchu. Tinha áreas com dormitórios para os viajantes e instalações de estábulo para seus animais domesticados.

Umas 2 horas mais de caminhada e chegamos a Sayacmarka, ainda antes do almoço. Dentro da cidadela existem diversas construções feitas com certa complexidade por terem sido adaptadas à forma da montanha, incluindo-se um aqueduto de pedra que deve ter levado água para o local no passado. As paredes são sólidas e a forma da fortaleza pode ser vista facilmente de longe. Acredita-se que o local possa ter sido um quartel ou prédio público, devido à ausência de terraços.

Após o almoço, entramos propriamente na selva peruana. A trilha se torna mais fácil e plana. Passamos até por pequenas cavernas. Pela metade da tarde chegamos a Puyupatamarka ("lugar sobre as nuvens"). O lugar está a 3.680 metros de altitude. Estas ruínas estão numa área de onde visualmente é possível controlar um amplo território e possivelmente foi um importante núcleo administrativo e religioso. Em dias claros, se consegue ver até a montanha Machu Picchu dali. As nuvens mais baixas do que você formam um bonito visual com as montanhas (foto ao lado).

A segunda metade da tarde é só descida. Descemos de 3.680m até o acampamento de Wyñaywayna que está a 2.650m. Muitos degraus, a ponto de deixar as pernas trêmulas no fim do dia. Bem pertinho do acampamento estão as ruínas. Wiñaywayna significa jovem para sempre e também é o nome quéchua de uma espécie de orquídea comum nas redondezas. Neste grupo arqueológico se encontram diversas construções bem trabalhadas, entre elas se destaca uma na parte superior conhecida como torre, uma sucessão de dez fontes rituais do lado direito que são clássicas em todos os povoados importantes e também o setor agrícola com grande quantidade de terraços artificiais. O acampamento de Wyñaywayna é o melhor de todos. Ali já há luz elétrica e um refeitório coletivo com bancos e cadeiras. Os banheiros possuem chuveiros quentes, o que traz uma alegria muito grande a todas as mulheres. Claro, você paga pelo banho, mas ninguém reclama. O jantar do último dia é caprichado e com luz elétrica. Tem até gelatina!


O quarto dia

Dormimos muito mal na terceira noite. Começou a chover forte e no meio da noite nossa barraca estava inundada. A solução foi juntar tudo e ir para o refeitório que era o local mais seco disponível. Muitos dos nossos colegas de grupo fizeram o mesmo. Rezamos para a chuva parar, mas nada. O quarto dia começou com ela. Seriam 2 horas e meia bem agradáveis de caminhada até Machu Picchu, não fosse a chuva. Já estávamos aclimatados e o terreno era só descida leve. Mas era muita chuva o que tornava tudo muito escorregadio.

Com mais ou menos 2 horas de caminhada, a trilha se estreita em degraus que conduzem acima até uma pequena estrutura de pedra. É Intipunku ("porta do sol") situada à 2.650 metros de altitude e a 4Km de Macchu Picchu. Em dias claros, dali se vê a cidade lá abaixo. Pudemos comprovar isso, quando voltamos até esse ponto no dia seguinte, ensolarado. Acredita-se que a Porta do Sol fosse uma espécie de alfândega para controlar a entrada de quem chegava à cidade.

Quarenta minutos mais de caminhada e estamos na cidade. Chegamos lá cedinho, na hora de abertura dos portões. A trilha termina com uma visita guiada à cidade, onde os guias explicam as principais construções. A cidade é linda por si só, mas a visita faz você entender a função de cada construção o que só faz a sua admiração crescer. 

Quando a trilha termina, você compra tickets para o ônibus que lhe leva até Aguas Calientes, o povoado mais próximo. São uns 40 minutos de viagem. Dali, poderá tomar o trem de volta até Cuzco ou relaxar nas águas termais. Nós ficamos uma noite em Aguas Calientes. O povoado é bastante simpático e tem bons restaurantes a preços razoáveis. Nosso hotel ali tinha duas coisas bem importantes: um excelente chuveiro quente e camas com ótimos colchões. Também conseguimos mandar lavar e secar algumas roupas. Mesmo com a mochila impermeável, passou muita água.

Apesar do cansaço e das privações, a trilha deixa boas recordações e é uma experiência única. Se tiver a chance, não deixe de fazer.

sábado, 17 de abril de 2010

Trilha Inca - Parte 1

Faz muito tempo que eu quero falar sobre a trilha inca, mas faltava coragem. Se você procurar no Google,  verá que existem bons sites por aí que falam tudo em detalhes, então me pareceu que o que quer que eu dissesse seria repetitivo e incompleto. Aviso desde já, então, que essa descrição será muito mais sobre impressões pessoais do que um guia orientativo.

Pra começar: o que é a trilha inca?
É um caminho construído nos tempos do império inca que inicia no chamado Km 82 da ferrovia Cusco/Quillabambae e vai até Macchu Picchu, no Peru. A rota normal é percorrer seus 42 Km em 4 dias. A maior parte do caminho é composto por pedras como você observa ao lado. Na minha opinião, nenhuma outra trilha que fiz ou que acredite que farei é comparável.

Como ir?
O ponto de partida é a cidade de Cuzco, no Peru. Todas as excursões para a trilha partem de lá. Você não poderá chegar e se aventurar sozinho. É necessário que esteja em um grupo acompanhado de guia. Existem normas com relação a número de pessoas por guia, inclusive, assim como número máximo de pessoas na trilha por dia. E mesmo que fosse permitido você teria que carregar montanha acima, em uma altitude que varia de 2.600m a 4.200m, além dos seus pertences, barraca e comida o que seria um peso extra considerável.

É possível contratar a empresa quando você chegar a Cuzco que é o ponto de partida da expedição ou já sair aqui do Brasil com tudo certo. Nós optamos por essa segunda opção, apesar de ser um pouco mais cara. Tínhamos as reservas e os dias certos para cada coisa, não poderíamos correr o risco de chegar lá e não conseguir encaixe em nenhum grupo naquelas datas.

O que você vai precisar

Em primeiro lugar você deve levar uma mochila, dessas de trilha. A minha tinha 45 litros e levei o mínimo. O aconselhável é uma um pouco maior, com uns 60 litros. A mochila deve ser impermeável. A minha era e mesmo assim, no último dia, molhou. Se você estava em um hotel e retornará para ele, os hotéis guardam a bagagem extra, estão bem acostumados. É importante que a mochila tenha bolsos para você colocar a garrafa de água. Se não tiver, você vai ter que adquirir um "porta-garrafa". Na primeira parada antes da trilha em Ollataytambo você encontrará dúzias deles. Aliás, nessa parada, também poderá adquirir um bastão de caminhada que vai lhe auxiliar muito nas subidas. Tudo é bem barato, acho que não chega ao que seria o equivalente a R$ 5.

Será necessário, ainda, um saco de dormir que suporte temperatura negativa. Existem lojas de aluguel em Cuzco, o mais fácil é alugar lá, eles conhecem e já lhe indicam o correto. Na rua que fica em frente à Praça das Armas há várias lojinhas de aluguéis de utensílios para a trilha.

Ainda que as refeições sejam responsabilidade da empresa que estiver lhe levando, é bom ter como extras chocolate e barrinhas de cereal. Você vai gastar bastante energia.

Também é aconselhável levar purificador de água. São umas pastilhas que se compra em farmácias (nós levamos daqui do Brasil inclusive) e se coloca 1 pastilha em cada 2 litros de água. Em hipótese alguma beba água da trilha sem fervê-la ou usar as pastilhas.

Nem sempre será possível tomar banho. Então, é recomendo aqueles lencinhos de limpeza para bebês que se encontra nos supermercados.

Com relação às roupas, leve umas 2 calças de tactel, umas 3 camisetas de dry-fit ou material similar, uma capa de chuva e um casaco mais grosso com capuz(que eu usava de travesseiro à noite). Leve meias de sobra, pois elas podem molhar e no máximo dois calçados. Eu levei ainda um blusão de lã que usava de noite junto com o casaco. Durante a caminhada você não sente frio, o problema é quando para.

Não esqueça da lanterna. Você só verá eletricidade de novo no acampamento do terceiro dia. Aliás, banho quente também.

Aclimatação
É totalmente desaconselhável chegar em Cuzco e partir para a trilha no mesmo dia. O ideal seria ficar na altitude durante uma semana, se aclimatando, para só depois partir. No entanto, é possível chegar em um dia pela manhã e partir para a trilha no dia seguinte, como fizemos. Você só vai se "arrastar" nos primeiros dois dias. No terceiro dia de trilha já fica um pouco melhor.

O primeiro dia

Cedo pela manhã, você sai de Cuzco e pega um ônibus que lhe leva até Ollataytambo. Ali é uma espécie de ponto de encontro para últimas providências, onde guias e carregadores se encontram com os grupos. Os carregadores de trilha são profissionais bem remunerados para os padrões peruanos, inclusive, chegam a ganhar 40 dólares por dia. A questão é que, carregando 25 quilos nas costas (o máximo permitido), a aposentadoria deve chegar bem cedo.

Depois disso, o ônibus segue por uma estradinha estreita e que dá medo até o Km 82. São aproximadamente 14 Km de Ollataytambo até esse lugar, conhecido como Piscacucho, mas parece mais. Ali todo mundo desce e passa pelo posto de fiscalização. Então, atravessa-se a ponte sobre o Rio Urubamba que marca o início da trilha. É um dos momentos mais emocionantes do trajeto, perdendo só pra vista de Macchu Picchu da Porta do Sol no último dia e do banho quente que você vai tomar no hotel em Águas Calientes na volta da trilha.

O primeiro dia é relativamente leve. Caminha-se cerca de 11Km. Você não caminha sobre pedras, mas sobre uma estrada. Dependendo do seu grupo, começará a caminhar após o almoço, inclusive. A trilha inicia a 2700 m de altitude e nesse primeiro dia subimos apenas até 3000 m. Durante a tarde, tivemos duas pequenas pausas pra descanso. O rio nos acompanha ao lado em grande parte do trecho em contraste com as montanhas, num cenário bem bucólico como o da foto lá de cima. E avistamos o primeiro site inca ao longe: Llaqtapata.

A parada pode ser num acampamento (Wayllabamba), mas a nossa foi um pouco antes, no pátio de uma das casas de moradores da região. Não sei se dá pra chamar exatamente de pátio, porque ali coube umas 12 barracas, além da tenda restaurante. Não há possibilidade de banho nesse primeiro dia. O banheiro nada mais é do que uma casinha com um buraco no chão. No entanto, cabe lembrar que o clima da montanha é relativamente seco, então você praticamente não transpira. O desconforto acaba não sendo tão grande assim e com os lencinhos umedecidos você toma um "banho de gato".

Na refeição noturna, pipoca, peixe e até uma sobremesa quente típica, que não agradou muito, não. Bebemos muito chá de coca durante toda a caminhada e ele sempre era servido após as refeições. Dorme-se cedo. Às 9h da noite, todo mundo já está na sua barraca, porque o despertar em torno das 4h da manhã. O segundo dia é o mais difícil e por isso é preciso acordar cedo. Mas sobre ele, da próxima vez.

sábado, 10 de abril de 2010

O que me encantou em Macchu Picchu

Quando vi Macchu Picchu pela primeira vez, vi muito pouco. Chovia tanto, mas tanto, que a cidade praticamente desaparecia no meio da névoa. Tive a sorte, todavia, de poder esperar um dia a mais para voltar lá e me deslumbrar. Já falei sobre isso aqui antes, assim como já disse que achava muito justa a eleição da cidade como uma das novas 7 maravilhas do mundo. Mas fui muito breve nas minhas razões, então, achei por bem revisitar o tema. Aliás, se você tiver a chance de conhecer um único local no Peru e, talvez, na América do Sul, é pra lá que deve ir. Veja algumas razões para conhecê-la de perto.

Os mistérios

Machu Picchu, que significa Montanha Velha, é conhecida como a cidade perdida dos incas. Isso, porque os espanhóis, quando da conquista do continente nunca a descobriram. Sua origem e função são até hoje um mistério. E existem várias lendas quanto a seu desaparecimento também. Ela só foi descoberta em 1911 por um arqueólogo.

Há várias teorias sobre o que teria sido a cidade. Poderia ser uma região estrategicamente protegida, no topo de uma montanha, sendo um grande centro de estudos, onde se ensinava astronomia, agronomia, medicina e arquitetura. Poderia ser a cidade das mulheres eleitas para servir os soberanos Incas (80% dos esqueletos encontrados eram de indivíduos do sexo feminino) ou um local de retirada estratégica durante as guerras fratricidas dos Incas. Porém, para grande parte dos arqueólogos foi, sobretudo, um lugar de culto religioso ao Deus Sol, no culminar de longas romarias pela famosa trilha inca, a via empedrada com 33 quilômetros, por encostas escarpadas que leva à cidade. A trilha justifica a tese mais aceita hoje: a de que seria uma cidade sagrada.

Sobre o fim da cidade há também várias teorias: a que eu ouvi do nosso guia diz que os homens haviam saído para combater os espanhóis e não retornaram. As mulheres, sabendo das notícias de derrota e imaginando que cedo ou tarde os espanhóis encontrariam o local, cometeram suicídio ou morreram por alguma epidemia. Essa teoria vem dos esqueletos encontrados na cidade quando da descoberta.

O que encanta
1) O lugar em si. Você olha a forma como a cidade foi construída com aquelas montanhas em volta e tem a sensação que está num reino encantado saído de um livro.
2) A engenharia dos incas. A cidade foi inteiramente construída de pedras, sem a utilização de cimento ou qualquer tipo de cola. E continua em pé, mesmo estando em uma região submetida a constantes terremotos e chuvas. Porém, foi construído um eficiente sistema de drenagem que consiste em capas de pedras trituradas e rochas para evitar o empoçamento da água das chuvas (são 129 canais de drenagem). Estudiosos dizem que isso evita a erosão.
3) A simetria das construções, que demonstra profundo conhecimento de arquitetura, astronomia e matemática. Exemplo disso é o Templo do Sol. Nele existe apenas uma janela, iluminada pelos primeiros raios de sol, exatamente, às 7h15, de 21 de junho, início do solstício de inverno. Essa janela está em sincronia, nessa data com a porta do sol, a construção que seria a entrada da cidade, pela trilha inca, e que fica a 4Km de distância.

Algumas Construções

  • Templo do Sol: é considerada a construção mais importante e se diz que era um local protegido por um sistema de segurança, do qual se encontrou vestígios. Acredita-se que ali eram relacionadas cerimônias relacionadas ao solstício de verão, para "amarrar o sol". 


    • Tumba real: acredita-se que ali ficavam as múmias dos soberanos, pois nesse local foram encontradas algumas quando da descoberta da cidade.
    • Terraços: são a área rural da cidade, onde praticava-se a agricultura, segundo se diz, com técnicas bem avançadas. Os "degraus" são para evitar os deslizamentos e a erosão do solo. 
    •  Intihuatana: era uma espécie de relógio e calendário solar. Toda cidade inca tinha uma pedra sagrada, mas apenas essa foi poupada da destruição pelos conquistadores espanhóis, que eliminaram todos os sinais da idolatria inca. Ninguém sabe ao certo como essa pedra era usada.
     Para chegar
    O meio mais comum é pegar o trem diário na Estación San Pedro, em Cuzco, que leva cerca de 6 horas para chegar até Águas Calientes, uma cidadezinha ao pé da montanha que é também onde está localizada a rede hoteleira. Em Águas Calientes existe um ônibus que sai direto para lá, com trajeto de uns 40 minutos. Durante o dia eles saem seguidamente.
    A segunda opção foi a nossa: percorrer o Caminho Inca. Mas esse é assunto para outro dia.

      segunda-feira, 5 de abril de 2010

      Lugares para Visitar no Outono

      Já disse inúmeras vezes o outono é minha estação do ano preferida. E talvez porque eu goste tanto do outono, também acho que minha cidade (Porto Alegre) fica muito mais bonita no outono. Mas existem outros lugares que ficam lindos nessa estação e que são boas sugestões de viagem nessa época do ano.

      1) Mendoza, Argentina
      Por que no outono? Os verões são muito quentes e os invernos são extremamente frios, então o outono é a época ideal para visitar Mendoza. Dizem que "o amarelo ocre e cores das árvores dão um toque especial à paisagem".
      O que você pode fazer lá? A província é grande. Há pontos para visitar no Norte, como as dunas dos Altos Limpios (chamadas de "el Sahara mendocino") e o Bosque Telteca. Há ainda a Reserva Natural do Divisadero Largo. Para o sul, Laguna de LLancanelo (470 km da capital, no meio do deserto, com uma preciosa reserva de flamingos cor rosa). Há também passeios pelas montanhas (Alta Montaña por Villavicencio, onde se chega a um mirante de 3.500m dos Andes).

      Cabe lembrar ainda que essa é a região dos vinhos mais famosos da Argentina, ir no outono para buscar aquele vinhozinho para degustar no inverno pode ser uma boa pedida. (Fonte: Mendoza .travel)

      2) Jalapão, Tocantins
      A maioria das pessoas nunca ouviu falar de Jalapão. Aliás, a grande maioria das pessoas acha que no Tocantins só se encontra mato ou pântano. Pois bem, o Jalapão é uma região localizada no Cerrado Tocantinense, a leste de Palmas (a capital). Lá, inúmeras atrações, como cachoeiras, praias de rio, o Cânion do Sussuapara e o "Fervedouro". Dá uma olhada no blog EcoViagem e você entenderá para conhecer um pouco mais do Jalapão.

      Mas por que o outono? É o verão da região, quando as chuvas se tornam escassas e os dias são claros e ensolarados. Além disso, o local tornou-se roteiro turístico há pouco tempo, então, é necessário a infra-estrutura de uma operadora turística, que você encontrará especialmente no nosso outono.

      3) Cabo Polônio, Uruguai
      Apesar de todo mundo achar que janeiro e fevereiro são os melhores meses para o Uruguai, eu tenho que discordar. O outono, e especialmente abril, quando ainda não chegou o frizão, me parecem mais adequados, principalmente se você quer sentir a solidão e a paz de Cabo Polônio. Em janeiro, o local está povoado de turistas, já que praia, no Uruguai é só no verão mesmo. A propaganda que todos ouvem de Cabo Polônio diz que é o lugar para se sentir no meio do nada.

      Você não chega lá de carro. Deve deixá-lo num estacionamento e percorrer os 8 Km a pé ou em veículo 4x4. Pois bem, Cabo Polônio é um estreito de areia rodeado de dunas, com praia dos dois lados e meia dúzia de casas. Não há luz elétrica a não ser por gerador. Na ponta está um farol e uma ilha rochosa a 15 metros acima do nível do mar. É um excelente local para observação dos lobos-marinhos (dizem que são 300 mil). E você poderá observá-los com muito mais paz e tranquilidade no outono.

      4) Ushuaia, Terra do Fogo, Argentina
      Mais uma vez Argentina. Já comentei aqui que gostaria de voltar pra Ushuaia no outono. Disseram-me que as cores da cidade e dos parques ficam sensacionais nessa época do ano. O blog do Cereça não me desmente. Observem o colorido da foto dele.


      5) Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco
      Em um lugar onde faz 300 dias de sol por ano, por que você iria no outono? Porque a maior parte dos turistas já se foi, os preços são muito mais baratos e, a menos que o que você procure seja carnaval, você vai aproveitar tanto quanto no verão. Cabo de Santo Agostinho fica a 41Km de Recife que é uma cidade grande e a 20Km da famosa Porto de Galinhas. Possui várias praias, como Calhetas (foto ao lado), Paraíso e Gaibu, que parecem saídas de contos de fadas.

      sábado, 27 de março de 2010

      O direito de não fazer nada

      Um dos textos que me foi indicado por um following do Twitter nessa semana foi "The Cult of Busy". O texto realmente me impressionou e muito. Primeiro, porque eu também já tive a impressão de que pessoas cujos celulares tocam sem parar são realmente importantes e populares. Segundo, porque provavelmente jamais terei coragem de repetir "não tenho tempo" para alguém.

      Mas o texto me fez pensar ainda sobre outra categoria de pessoas. Aquelas que querem fazer todas as coisas ao mesmo tempo. É muito desagradável quando um amigo ou familiar marca com você um jantar e passa o tempo inteiro checando seus SMSs e e-mails no celular ou no iphone. Ou então comparece a determinado evento e passa mais tempo falando ao telefone com outras pessoas do que com as pessoas que estão sentadas na mesa. Melhor seria não comparecer. Não há nada pior do que não estar completamente focado em algo. Pessoas que tentam responder e-mails, conversar, jantar e ouvir música ao mesmo tempo, acabam não fazendo nenhuma dessas coisas direito.

      A segunda categoria que o texto me relembrou foi a daquelas pessoas com vida social intensa. Veja bem, não há nada de errado em ter uma vida social intensa se você gosta disso e isso lhe faz feliz, mas o problema aqui é que muitas pessoas têm necessidade de demonstrar que possuem muitos amigos, que vão a muitas festas e que são os primeiros a visitar o novo 'point' da cidade. Nessa semana, vivi bom exemplo disso. Inaugurou uma Petisqueira em frente a minha janela no trabalho. Pois antes do meio-dia a fila dava volta no quarteirão. Claro que todas aquelas pessoas sabiam que o lugar vai ficar por ali, aberto diariamente, durante o ano inteiro. Mas todo mundo queria ser o primeiro a experimentar e, uma boa parte desse povo, muito mais para contar aos amigos do que exatamente por vontade.

      Nós vivemos com uma urgência de fazer coisas. Tiramos férias e achamos que temos que viajar, conhecer 20 países em 10 dias. No final de semana, achamos que temos que preencher nosso tempo da manhã à noite com alguma atividade fora de casa. Mas quantos de nós realmente queremos fazer isso? Meses atrás, eu conversava com amiga de muitos anos e relembrávamos o nosso tempo de baladas. Depois de algum tempo, comentei com ela: "sabe que eu não gostava muito daquilo", ao que ela prontamente me respondeu: "pois para mim era verdadeiro sacrifício sair todos os finais de semana".

      Acho que já fui uma 'busy woman'. Já vivi nessa urgência de sempre estar procurando algo para fazer, sempre me sentindo culpada por estar desperdiçando tempo se estivesse parada. Porém, hoje, consigo ter dias como o domingo passado: não fiz nada a não ser dormir, comer e assistir a apenas 1 filme e, ainda por cima, na TV. Não acho mais que o meu tempo tenha sido desperdiçado. Eu estava fazendo exatamente o que queria fazer naquele dia.

      Em informática, nós usamos um termo chamado multithreading que é a capacidade para executar várias tarefas ao mesmo tempo. Isso é uma habilidade de alguns processadores. O ser humano é multithreading, em termos. Fazemos várias coisas ao mesmo tempo, sim, mas o foco da nossa atenção inevitavelmente fica em apenas uma dessas coisas. Para as demais, temos apenas olhos periféricos e, se alguém nos perguntar o que realmente aconteceu, não teremos visto. De uns tempos pra cá, descobri que se curtir bem o meu dia de 'fazer nada', tenho muito mais disposição para enfrentar as coisas que mais me aborrecem e que necessariamente precisam ser feitas em algum momento. Aliás, enquanto não faço nada, consigo pensar em formas mais eficientes de gerenciar meu tempo (o que não é fácil com duas profissões e quatro lugares diferentes de trabalho) e tenho conseguido.

      Mas talvez tudo isso seja uma grande besteira e eu só esteja ficando velha.

      PS: Pra quem está com saudade dos posts sobre viagens, em breve retomo.

      sexta-feira, 19 de março de 2010

      Das coisas que eu sinto falta

      Esse ano nada de inferno astral. Incrivelmente, o período transcorreu sem grandes turbulências, numa calma até assustadora. Então, naquela depressão pré-aniversário que costuma me atingir, fiquei a pensar nas coisas que o tempo nos tirou e que (ao menos a mim) fazem falta:

      • Casas sem grades
      • Andar de bicicleta na rua
      • Quando eu sabia quem era a vizinha do quintal ao lado e ela era até minha amiga
      • Quando os Paralamas do Sucesso lançavam disco todo ano e eu ia aos shows quase todo ano
      • Picolé feito em casa que tinha gosto de gelo
      • Tomar banho de chuva sem as pessoas acharem que era maluca
      • Quando alguém pedia 'licença' no ônibus lotado para passar e as pessoas realmente se esforçavam para dar passagem
      • Quando no mesmo ônibus lotado alguém que estivesse sentado se oferecia para segurar suas coisas (e não era batedor de carteira)
      • Patins
      • Quando a gente acreditava que concursos e vestibulares eram livres de fraudes, mesmo sem colher digital e mesmo sem aquele monte de normas de segurança dos editais de hoje
      • Quando acordava cedo aos domingos pra ver Ayrton Senna correr
      • Cinema com criatividade nos efeitos especiais (e como é bom rever)
      • Cinema com roteiros de verdade ao invés de golpes de artes marciais de 360º
      • Quando era bonito ter cachos no cabelo
      • Pesquisa na biblioteca que acabava reunindo toda turma de amigos
      • Ficar uma tarde inteira sem ser encontrada (porque não existia celular)
      • Cartas
      • Bolinho de chuva
      • Quando o Zaffari vendia sorvete da Conaprole de doce de leite granizado
      • Chocolate Kit-kat
      • Batata frita de mãe (as mães não fazem mais batata frita)
      • Piscina no clube nas tardes quentes de verão
      • Invernos de verdade
      • Letra cursiva

      Como diria Mário Quintana: "O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo..."

      quinta-feira, 11 de março de 2010

      Geração Y, geração Z e o futuro do trabalho

      Uma das coisas que me inquietava era pensar em como as crianças de hoje se adaptariam as estruturas hierárquicas das empresas amanhã, quando precisassem entrar no mercado de trabalho. Falo isso, porque todo mundo vê que a maioria das crianças dessa geração não demonstra o menor respeito por regras ou pela liberdade das outras pessoas. O foco é o "eu quero". Há vinte anos,crianças ajudavam nos afazeres domésticos, mesmo que com coisas mínimas. Com 7 ou 8 anos eu já tinha que espanar o pó e secar a louça. E, sim, nós respeitávamos as professoras nas escolas. Se passássemos uma rasteira enquanto uma caminhasse, como aconteceu ano passado no local onde minha mãe trabalha,seria expulsão na certa. Hoje, apenas se chama os pais que vão alegar que o coitadinho é muito jovem para entender o que se passa. Nós crescíamos com um senso de obrigação muito maior do que de prazer, o que não quer dizer, necessariamente, que éramos mais felizes.

      Até então, eu imaginava que quando essas crianças crescessem teriam uma espécie de choque com a realidade. Criados em um mundo imaginário, onde eram reis e princesas, em que todos faziam as suas vontades, teriam dificuldades para entender que, na vida, a gente começa de baixo e não direto, digamos, na posição de diretor de empresa, decidindo o que deve e o que não deve ser feito.

      Mas eis que lendo uma matéria (acho que foi na Zero Hora, mas não consegui encontrar mais a fonte depois), mudei totalmente a minha visão. De repente, me dei conta de que essas crianças e jovens - as chamadas gerações Y e Z - não vão precisar se adaptar tanto a regras e hierarquias quando chegarem ao mercado de trabalho. As empresas é que vão mudar. Estruturas hierárquicas rígidas e  horários de trabalho inflexíveis tendem a desaparecer. Ferramentas de comunicação online, como o MSN vão deixar de ser um problema, para tornar-se uma forma rápida de interação entre setores e, mesmo de busca por soluções. Afinal, quem melhor do que aquele seu ex-colega de trabalho que está no Canadá para lhe ajudar a resolver um bug no sistema que ele desenvolveu e no qual você hoje dá manutenção?

      Sem flexibilização de regras, grandes empresas não reterão grandes talentos e tendem a perder empreendedores criativos, o que fatalmente lhes levará ao desaparecimento. Deve-se ter em mente que o importante pra geração que já está por aí não é construir uma carreira sólida em uma empresa: o objetivo é a satisfazer objetivos pessoais, trabalhando naquilo que se gosta. Nesse sentido, propostas como a da Natura são bem interessantes. Para selecionar seus trainees, a empresa apostou num modelo de seleção de que prioriza candidatos que acreditam na proposta da empresa e se identificam com seus valores, como a capacidade de aprender, o respeito ao meio ambiente e à sustentabilidade. E fez tudo isso através de mensagens virais pela web, sem identificar-se como empresa, num primeiro momento.

      Proposta semelhante eu vi em uma das áreas de desenvolvimento de software na Globo.com há cerca de dois anos. Havia um gestor de equipe, mas os profissionais do time poderiam assumir diferentes papeis, dependendo do projeto. Você poderia ser líder de determinado projeto e em outro ser um programador. Era aplicada uma metodologia chamada "Scrum" (bastante conhecida na área de Tecnologia da Informação, mas não tão conhecida em outras áreas) que se adequa muito a esse novo mundo empresarial. Os times se reúnem diariamente por 15 minutos e todos os membros tem igual tempo para manifestar-se nesse período, sem maior preocupação com quem seja o líder naquele momento.

      Enfim, é certo que o universo do trabalho está mudando. E quem sabe no futuro, também se mudem algumas regras no rígido universo da justiça, como aquela do STF, que proíbe "a entrada de pessoas calçando chinelos, tênis, sandálias ou calçados estilo 'sapatênis', assim como trajando qualquer peça de roupa de tecido jeans" em suas sessões.

      sábado, 6 de março de 2010

      Geisy Arruda e o Carnaval

      Durante muito tempo disse aos conhecidos que não expressaria minha opinião sobre o caso Geisy Arruda (a famosa estudante do vestido rosa da Uniban). Mas eis que li uma nota semana passada dizendo que a menina "depois de lutar para remarcar as provas de final de semestre, as perdeu devido às pressões do carnaval" e fiquei a pensar no quão emblemático o caso é. Digo isso, porque sabemos que a moça contratou advogados e que tem uma ação na justiça contra a universidade, ação essa, que tem grande probabilidade de vencer.

      Em primeiro lugar, juridicamente falando, não há dúvida de que a menina sofreu dano moral. Ora, se a exposição pública e o xingamento público, sem falar na divulgação de vários vídeos pela internet não causam abalo moral, eu não sei o que causa. A universidade pode alegar que não tem culpa, que foi "culpa exclusiva da vítima" ou "fato de terceiro", mas, se pensarmos que os clubes de futebol respondem pelos danos em torcedores causados pelos tumultos das torcidas que saem do controle, igualmente, uma universidade que não oferece segurança suficiente aos seus alunos e que não impede que uma manifestação que deve ter iniciado com meia dúzia de abobados querendo "tirar onda" tome grandes proporções, responde, sim. Não precisa ser gênio ou ter o notório saber jurídico para chegar a essa conclusão.

      A questão, no entanto, é um pouco mais profunda que isso. Doutrinariamente falando, a indenização por dano moral visa "restaurar o status anterior ao dano". Agora eu pergunto: será que se a menina pudesse escolher entre voltar a ser uma anônima estudante de turismo que trabalhava num mercadinho, sem nunca ter sofrido o que sofreu, ou entre ser uma celebridade que aparece na TV, desfila em escolas de samba, coloca megahair e ganha cirurgias estéticas, escolheria o que? Não é novidade que a sociedade parecer dar mais valor a um ex-BBB do que a um médico que corre de um lado para o outro num pronto-socorro.

      Não estou aqui a defender a universidade, muito menos os criminosos (sim, criminosos) que a ofenderam ou a dizer que ela não deveria ganhar uma indenização, mas me parece que "retornar ao status anterior" aqui não é exatamente o objetivo almejado. Acredito que de um modo tosco, como é próprio dos nossos tempos, a sociedade já reparou o dano a essa menina. A gente aprende na faculdade que o real significado de justiça é "dar a cada um aquilo que é seu", mesmo que isso signifique não tratar igualmente a todos. Então, eu, que não vou decidir nada, nem sou formadora de opinião me pergunto: será que Geisy Arruda já não recebeu o que é seu?