quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Sobre não saber o que se quer

Existe um texto que circula na Internet, chamado "Wear Sunscreen" que teve tradução do Pedro Bial há uns 3 ou 4 anos e virou febre na época de Natal daquele ano. Eu sempre preferi o original em inglês. O texto foi uma coluna publicada no Chicago Tribune em 1997 e, mais tarde, foi transformado em música. A lógica do texto é trazer uma série de conselhos para a vida, como se fosse um discurso de formatura para quem está está saindo da escola e entrando na vida. Gosto do texto inteiro, mas uma das partes que particularmente me chama a atenção é o trecho abaixo.

Don't feel guilty if you don't know what you want to do with your life. The most interesting people I know didn't know at 22 what they wanted to do with their lives, some of the most interesting 40 year olds I know still don't.

Numa tradução não literal (de uma não especialista em inglês), seria algo como "não se sinta culpado se você não sabe o que quer de sua vida. As pessoas mais interessantes que eu conheci não sabiam aos 22 anos o que queriam. Algumas das pessoas mais interessantes que eu conheci ainda não sabem aos 40".

Quanto mais envelheço, e principalmente nessa época do ano em que inscrições para o vestibular estão abertas, mais acredito ser cruel um adolescente de 17 anos ter que escolher a profissão que quer para o resto da vida, sem nunca ter trabalhado e sem ter experiência nenhuma do mundo prático.

Há coisas que você vai fazer por anos até que um dia você acorda e percebe que não nasceu para fazer aquilo. Eu, por exemplo, não sei viver sem prazos. Realmente me sinto perdida sem eles, é como se estivesse navegando sem saber onde vou chegar. Então, em qualquer atividade onde eu não tenha metas e datas bem definidas me perco. Talvez seja uma das razões pelas quais me adaptei tão facilmente à advocacia. O advogado convive diariamente com metas e prazos, "sem choro, nem vela". Perdeu, azar o do seu pobre cliente. Só que eu não me conhecia suficientemente aos 16 anos, quando tive que escolher uma profissão para saber disso. Com 16 anos, eu sabia (e posso reafirmar porque mantenho meu diário da época) apenas:

  • que eu odiava hospitais, então não podia ser médica, enfermeira, bioquímica ou dentista;
  • que eu não podia ser professora (o que excluiu todos os cursos na área do magistério), porque ia ganhar muito pouco e aí não poderia viajar;
  • que eu não queria ser advogada porque era muito tímida e advogados precisam falar;
  • que eu não podia ser jornalista porque era muito tímida e jornalistas precisam falar;
  • que eu não podia fazer nada na área comercial porque não vendia nem rifa;
  • que eu não poderia ser juíza porque não seria capaz de decidir sobre a vida das pessoas;
  • que eu escrevia bem;
  • que eu ia bem na escola em todas as matérias, exceto educação artística;
  • que eu era muito descoordenada em qualquer esporte para cursar educação física;
  • que eu queria fazer um curso de 4 anos, pra poder me formar jovem e comprar um carro;

Então, falando sério, que capacidade tinha eu para decidir que curso fazer? Eu cheguei a fazer um psicotécnico e o resultado foi "é, realmente você está indecisa". Tenho consciência de que nem todos os adolescentes são como eu era, mas são muito poucos aqueles que escolhem uma profissão para a vida inteira aos 17 anos. Então, se eu pudesse deixar um legado para a humanidade (embora eu não esteja tão velha assim pra pensar que seja meu único legado) eu diria para não escolher uma profissão ao terminar o 2º grau. Trabalhe, faça inglês e vá cuidar de crianças por um ano no exterior ou se tiver que escolher, escolha qualquer coisa, mas não tenha medo de trocar com 2 anos cursados. Aliás, não tenha medo de mudar nunca, se for para fazer algo que gosta. Para algumas pessoas, a ficha vai cair com 20 anos. Para outros vai cair só depois dos 30, 40, 50. Mas talvez as pessoas mais fascinantes sejam mesmo aquelas que não sabem o que querem.

5 comentários:

Lauro Matos disse...

Anelise,

Muito interessante seu ponto de vista sobre esse assunto. Vou publicar uma resposta em meu blog. Me deixe refletir por algumas horas.

Abraços!

Silvio disse...

Argumentação perfeita Ane. Muito bom post. Beijo grande.

Luciano Pillar disse...

Anelise, muito importante o assunto e bom o texto.

O que temos que fazer na vida é aprender, amadurecer e evoluir. As situações do cotidiano servem para isso. Além disso, a vida serve para nos unirmos com as pessoas na forma mais profunda possível.

Agora, considerando a situação prática em nossa sociedade, a questão em que pensamos quando nos referimos ao que fazer é o trabalho. E, além disso, vivemos num meio onde só temos acesso as coisas se tivermos dinheiro, o que normalmente é obtido com trabalho. Assim, precisamos pensar em vocação, ou apenas gosto pessoal, muito mais do que nos verdadeiros objetivos de vida expostos acima.

E mais um problema, como colocastes, é o fato de termos de tomar decisões sérias em tenra idade. Normalmente serão decisões erradas, devido a falta de maturidade do jovem. E, ainda, como a maioria das pessoas não possui força nem discernimento suficiente para mudar de trajetória quando o caminho está errado, a tendência é permanecer para sempre preso a uma decisão equivocada da juventude. Essa é a situação mais comum.

A solução? Precisamos alterar a forma da sociedade se organizar em torno do tema, considerando a natureza humana e nossos verdadeiros objetivos expostos acima.

Como? A princípio, sem alterar demais a estrutura atual, o jovem precisa de alguns anos de liberdade antes de ingressar no "mercado". Anos para o ócio e trabalhos diversos para ele se conhecer melhor.

Solução mesmo? Isso requer alterações mais profundas no sistema que só ocorrerão quando formos mais maduros e se tivermos intenções para isso. Não é para agora. Estamos falando, provavelmente, em várias gerações.

Alexandre Perin disse...

Eu era bem decidido: queria ser astronauta ou mexer com computadores. Deu no que deu...

Rosa de Fogo disse...

São 23:50pm, postei no Google: "sem saber o que fazer", estava triste, mais no final do texto, quando li a última frase...amei. Estava precisando saber que ao menos sou interessante aos 33 anos...não sei o que fazer ainda. Obrigado.