quinta-feira, 18 de junho de 2009

Das coisas que eu não entendo

O STF diz que não é necessário diploma para exercer a função de jornalista, porque, segundo ele, a profissão não exige conhecimento técnico e valores como ética e seriedade são inerentes à pessoa, não se aprendendo na faculdade. Citou-se, inclusive, o exemplo de um chef que pode ter sucesso, sem frequentar um curso específico.

Seguindo o raciocínio do Supremo, eu diria que nenhuma profissão necessita de diploma universitário, não acham? Afinal de contas, se um cozinheiro, digamos, inicia a trabalhar como auxiliar de cozinha e, com a experiência se transforma em chef, um auxiliar de enfermagem que trabalha em um hospital poderia, com a experiência se tornar um médico.

Digo mais: se um jornalista pode aprender o seu ofício pela prática e pela leitura, um advogado, do mesmo modo, poderia aprender a lei, simplesmente lendo em casa os livros de doutrina e a legislação e pesquisando a jurisprudência, hoje acessível a todos, pela Internet. Se a disciplina de redação jornalística ministrada nas universidades é dispensável, também não o seria a de prática jurídica? Afinal, cada uma em sua área, ambas ensinam a escrever em linguagem técnica.

Só para citar um exemplo, conclui o meu curso de direito em dezembro do ano passado, prestei o exaustivo e estressante exame para a Ordem, fui aprovada e até agora não posso exercer a advocacia porque, pasmem, a carteira demora mais de dois meses para ficar pronta, depois que você entra com os papéis. Em tese eu estou habilitada a exercer a profissão, mas na prática não posso. Por que essa reserva de mercado para os profissionais jurídicos e a abertura extensiva a qualquer um que queira ser jornalista? Um jornalista que publica uma notícia sem checar a fonte não causa o mesmo dano à coletividade que um advogado despreparado?

Não sou jornalista, mas trabalhei com eles durante muito tempo e pergunto: quanto tempo você leva para escrever um texto em terceira pessoa, narrando um acontecimento? Você sabe o que é uma retranca? Uma linha de apoio? Um teleprompter? Eu imagino que os Ministros do Supremo saibam, afinal, a profissão não exige conhecimento técnico. Mas quem sou eu para questionar, não é mesmo? Eu não tenho o tal notável saber jurídico. Sou apenas uma cidadã tentando entender.

Um comentário:

Cássia disse...

Ane, eu sou contra a obrigatoriedade de diploma DE JORNALISMO para ser jornalista. Mas acho que um diploma de curso superior deve, sim, ser obrigatório. Também seria legal se houvesse um exame como o exame da Ordem antes de se dar o registro pra criatura. Aliás, se esse exame existisse hoje, a maioria dos jornalistas formados não passaria. Tu, aposto que sim ;-)